Da minha janela
crônica V - O Maravilhoso Mundo de Gleice
Faz 22 anos, desde que eu me mudei para
esta casa, que vejo pela mesma janela a vida lá fora.
A janela não mudou muito desde que
eu estou por aqui, a cor continua a mesma, um branco que já foi repintado pelo
menos umas duas vezes, os vidros já não tem todos os adesivos que tinham quando
eu era criança, muito deles eu mesma retirei e joguei fora, parece que hoje em
dia não é mais costume colar adesivos na janela, mas naquela época parecia ser
bem legal.
A tela permanece da mesma forma, com
uma moldura de madeira branca, se quiser eu posso removê-la, pois não é fixa. Não
me lembro quando ou o porquê, mas coloquei um crucifixo pendurado na fechadura e
há um tempo ele ganhou uma companheira, uma fitinha do Senhor do Bonfim que
recebi de presente.
Para adornar a janela, a cortina que
no início era um painel de quatro partes com fundo bege e tiras vinho, agora é
de tecido com um eficiente “blackout” branco.
Mas existe uma coisa que mudou e continua mudando a cada ano:
a vista.
Já tive tantas vistas de minha
janela, que acompanharam tantos pensamentos...
No começo não havia tantos prédios,
ou melhor, quase nenhum. Podia se ver as luzes da represa à noite, o primeiro
hipermercado que se erguia na cidade, o horizonte.
Na minha janela já esperei amores
que nunca vieram, já vi paqueras que nem sabiam de minha existência sorrateira
a observar. Já vi carros sendo roubados, motos derrapando, pessoas rindo e
falando alto, o vizinho ensinando a filha como colocar o carro na garagem, o
governador do Estado inaugurando mais uma de suas promessas, casas de vizinhos
que se foram, casas de vizinhos que chegaram.
Antes podia ver a casa da esquina
com o seu pequeno jardim e às vezes aquela simpática senhora cuidando das
flores, mas a vida é traiçoeira, seu marido se foi e logo após ela também, e a
casa...bem...essa foi ao chão, dando lugar ao que hoje vejo: um prédio
comercial verde de dois andares.
Da minha janela eu vi amigos
acionando a buzina anunciando a chegada, o tão aguardado namorado virando a
esquina, o céu encoberto de nuvens cinzentas, a chuva se derramando torrencial,
a enxurrada desbravando a rua com muita presteza, o céu iluminado vezes pelo
sol, vezes pelo flash dos relâmpagos.
Da minha janela eu vi o menino que
brincava de bola, hoje fumando um cigarro preguiçoso; a menina que brincava de
boneca, hoje empurrando um carrinho de bebê.
Da minha janela eu vi o antigo se
acabar dando lugar ao novo.
Da minha janela eu vi...da minha
janela eu vejo...da minha janela eu ainda verei...


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