sábado, 22 de dezembro de 2012

Da minha janela
crônica V - O Maravilhoso Mundo de Gleice

Faz 22 anos, desde que eu me mudei para esta casa, que vejo pela mesma janela a vida lá fora.
A janela não mudou muito desde que eu estou por aqui, a cor continua a mesma, um branco que já foi repintado pelo menos umas duas vezes, os vidros já não tem todos os adesivos que tinham quando eu era criança, muito deles eu mesma retirei e joguei fora, parece que hoje em dia não é mais costume colar adesivos na janela, mas naquela época parecia ser bem legal.
A tela permanece da mesma forma, com uma moldura de madeira branca, se quiser eu posso removê-la, pois não é fixa. Não me lembro quando ou o porquê, mas coloquei um crucifixo pendurado na fechadura e há um tempo ele ganhou uma companheira, uma fitinha do Senhor do Bonfim que recebi de presente.
Para adornar a janela, a cortina que no início era um painel de quatro partes com fundo bege e tiras vinho, agora é de tecido com um eficiente “blackout” branco.
Mas existe uma coisa que mudou e continua mudando a cada ano: a vista.
Já tive tantas vistas de minha janela, que acompanharam tantos pensamentos...
No começo não havia tantos prédios, ou melhor, quase nenhum. Podia se ver as luzes da represa à noite, o primeiro hipermercado que se erguia na cidade, o horizonte.
Na minha janela já esperei amores que nunca vieram, já vi paqueras que nem sabiam de minha existência sorrateira a observar. Já vi carros sendo roubados, motos derrapando, pessoas rindo e falando alto, o vizinho ensinando a filha como colocar o carro na garagem, o governador do Estado inaugurando mais uma de suas promessas, casas de vizinhos que se foram, casas de vizinhos que chegaram.
Antes podia ver a casa da esquina com o seu pequeno jardim e às vezes aquela simpática senhora cuidando das flores, mas a vida é traiçoeira, seu marido se foi e logo após ela também, e a casa...bem...essa foi ao chão, dando lugar ao que hoje vejo: um prédio comercial verde de dois andares.
Da minha janela eu vi amigos acionando a buzina anunciando a chegada, o tão aguardado namorado virando a esquina, o céu encoberto de nuvens cinzentas, a chuva se derramando torrencial, a enxurrada desbravando a rua com muita presteza, o céu iluminado vezes pelo sol, vezes pelo flash dos relâmpagos.
Da minha janela eu vi o menino que brincava de bola, hoje fumando um cigarro preguiçoso; a menina que brincava de boneca, hoje empurrando um carrinho de bebê.
Da minha janela eu vi o antigo se acabar dando lugar ao novo.
Da minha janela eu vi...da minha janela eu vejo...da minha janela eu ainda verei... 


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